terça-feira, 9 de outubro de 2012
Eleições, democracia e racismo institucional. Breve reflexão.
Eleições, democracia e racismo institucional. Breve reflexão.
As eleições e nossa democracia tiveram amplos espaços de reflexões nas mídias e na população em geral. O descredito do sistema eleitoral vigente é visível, tanto pela classe política, quanto pela população. A reforma do sistema partidário brasileiro é apenas o mínimo para "uma vida" ao que restou de uma tentativa de democratização no Estado Brasileiro.
Dessa forma, aqui, o foco é o racismo institucional, que está contido na organização sistêmica da democracia atual. No conceito: "É toda forma de ocorrência que coloca em uma situação de desigualdade um coletivo, neste caso, um coletivo étnico. Ele não difere dos outros tipos de racismo, mas ele acontece através das instituições, coisa que não estamos acostumados a perceber. Então o processo de desenvolvimento institucional privilegia determinado tipo de grupo étnico em detrimento de outros. O racismo institucional pode ser encontrado, por exemplo, na hora das contratações no mercado de trabalho ou quando o Estado deixa de eletrificar determinada comunidade rural, ribeirinha, e desenvolve a mesma eletrificação em uma outra comunidade étnica." Mário C. Crisóstomo.
A essência do racismo é a mecânica, que através da força - concreta e subjetiva - se utiliza historicamente para separar e dominar classes, raças, povos e etnias. O racismo tem guarida na assertiva de que raças não existem; pois ignora que o "racismo" que falamos não é um debate meramente biológico.
De outra forma encontra morada no discurso que teoriza a inclusão dos negros pela arte, música, pela dança, pelo futebol. Cabe nas teses da importância histórica dos negros e negras no Brasil e no mundo. Enfim esconde-se em discursos enfadonhos, negligentes, herméticos e Racistas.
Dessa forma, o racismo que falamos não termina num debate de cotas, ou não cotas; muito embora seja um eixo que estrutura um debate afirmativo. Segundo Michel Foucault, racismo é: “o meio de introduzir (…) um corte entre o que deve viver e o que deve morrer”. No contínuo biológico da espécie humana, o aparecimento das raças,a distinção das raças, a hierarquia das raça qualificação das raças, a distinção das raças, como boas, e de outras, ao contrário, como inferiores, tudo isso vai ser uma maneira de fragmentar esse campo do biológico de que o poder se incumbiu; uma maneira de defasar, no interior da população, uns grupos em relação aos outros. (…) o racismo faz justamente funcionar, faz atuar essa relação de tipo guerreiro –‘se você quer viver, é preciso que o outro morra – de uma maneira que é inteiramente nova e que, precisamente, é compatível com o exercício do biopoder”. Michel Foucault, Em defesa da sociedade, SP, Martins Fontes, 2002, p. 304-305. O autor segue ,“a especificidade do racismo moderno, o que faz sua especificidade, não está ligado a mentalidades, a ideologias, a mentiras do poder. Está ligado à técnica do poder, à tecnologia do poder” (idem,p. 309), isto é, ao biopoder enquanto um poder (estatal) de regulamentação que se exerce sobre populações e consiste em “fazer viver e deixar morrer”. http://www.circulopalmarino.org.br/2012/05/preconceito-racial-e-racismo-institucional-no-brasil-algumas-reflexoes/
Pois é no "fazer viver e deixar morrer" que reside o racismo institucional no sistema eleitoral brasileiro. Ora o debate central pós sequestro e diáspora da etnia negra é a busca da 1) identidade (seqüestrada); a inserção pós fim da escravidão no 2) mercado de trabalho e 3) a geração de renda. Tríade sem que impossível estabelecer a inserção autonoma, independente dos negros na institucionalizada brasileira.
Vejamos que para ilustração "deixa-se viver" nos partidos políticos os que apresentam-se primeiramente mais viáveis eleitoralmente; muito embora esse deva ser um debate objetivo... Não é! Não é porque na teoria objetiva do racismo institucional os negros não figuram como os mais viáveis. Simples assim. O segundo fator é a estrutura que as candidaturas apresentam; aqui reside a afirmação: "os candidatos com maiores capacidade financeira, por obvio, devem ser prioridades". Certo? Errado. Novamente o "fazer viver e deixar morrer" darwinismo dirão alguns. Errado novamente. O darwinismo é uma seleção natural em que os mais fortes sobrevivem. Aqui os mais fortes ganham vacinas, enquanto os mais fracos deixa-se morrer. Não há nessa lógica desconstrucão e luta ideológica pelo fim do racismo, mas sim a reprodução ideológica dele: o racismo.
De outra forma enfrentando, talvez, a defesa de uns que de sorte negros brasileiros deveriam ter capacidade de, autonomamente, subsidiar igualitariamente sua capacidade de disputa eleitoral, certo? Errado novamente. Esse é um problema histórico, que aqueles que defendem cotas devem se observar melhor; ou tão somente resolver suas contradições; ficando no campo dos mais progressistas. Ora, se os pontos centrais de empoderamento da população negra passam pela estruturação e apropriação de sua identidade, trabalho e renda fica evidente por exposição o papel que as organizações políticas devem acolher no debate e combate ao racismo institucional. Evidente que para isso devam, primeiramente, entender o que é o racismo institucional, de sorte, que talvez tenham uma compreensão menos cartesiana e utilitarista da população negra na sociedade brasileira e, nesse sentido, o entendimento histórico do papel institucional das organizações que se pretendam não-racistas.
Brevemente, portanto a afirmação de que as organizações políticas no sistema brasileiro devem deter-se na superação de seu racismo institucional. De outra forma, que brancos, negros e negras militantes das organizações políticas devem prioritariamente fomentar a superação ideológica racista dessas (de suas) organizações.
Um grande abraço e força na luta!
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