A reforma política que tramita no "Congresso Nacional de alguns brasileiros" é de fato para alguns brasileiros. Faz uma disputa importante, classista, na discussão do financiamento público que busca equilíbrio na disputa dos votos; de outro lado o movimento feminista (que deve e tem homens também) faz uma disputa de força com o conservadorismo machista hegemônico nos partidos políticos e no conjunto da sociedade; o equilíbrio de gênero tem sido moeda de troca; pra uma reforma mais consistente ou mais amena.
No que tange avanços étnicos de um país com mais de 51% de sua população declarada de negros e pardos, pouco avança; hoje são 43 deputados, autodeclarados negros, de um total de 513; representando miseráveis 8% do total. Partidos das mais variadas matizes não enfrentam a questão; aliás um contraditório silêncio, uma vez que alguns (auto denominados de esquerda) apóiam cotas nas universidades e nos concursos públicos.
Não é atoa; os partidos são comandados sobremaneira por não negros (isso não é determinante, mas evidente que importa); numa sociedade de mais de 51% de negros e pardos, tranquilamente é um descenso a marca de 8% de deputados; os "representantes do povo". Os comandos partidários são de não negros que objetivamente pouco ou nenhum interesse tem na ascensão politica de negros e negras. O aumento da participação de negros nas instâncias partidárias dá outra estética e conteúdo nas discussões; partido político e direção política é poder; e desse poder o mundo monocromático não abre mão; para isso inventa um conjunto de teses e pseudos para justificar seu racismo institucional; da afirmação que em se tratando de partido não é bem assim; que isso seria a racialização do debate (como se os dados efetivos já não demonstrem isso); fora qualquer tese clássica do paradigma capitalismo x socialismo, que debilmente pensa encerrar o mundo das transformações sociológicas; num monolitismo atrasado e equivocado; entre outras teses clássicas vendendo uma teoria estanque e por aí vai a criatividade racista vigente. Ademais demonstra que nada tem de discussão e acúmulo teórico e prático na questão; se tem, e certamente pensam que tem, é uma visão equivocada, que nada interfere da disputa real necessária atual dos afrobrasileiros.
A defesa de uma reforma politica que contemple a participação efetiva da população negra (e tem os indígenas, que vale a analogia) altera a disputa política no Brasil; a grande verdade, que historicamente os partidos vem surfando numa boa onda; afinal esse apoio ocasional rende alguns votos (de 4 em 4 anos), quando os partidos saem de suas super-estruturas e invadem vilas, favelas, periferias e os guetos das cidades onde a população negra tem sido remetida historicamente; e muito por falta de políticas publicas, que seus "representantes" de hoje e de outrora deveriam atuar; mas não atuam; pior não atuam e não deixam os negros e negras atuarem; o racismo está estampado na ausência de negros em direções partidárias, em nominatas para os cargos eletivos e nas composições dos governos; no "Congresso Nacional de alguns brasileiros" fica a marca do racismo, que muitos dizem não existir no Brasil; aliás um racismo que opera na não Lei (na ausência de produção legislativa), na omissão de pessoas e instituições e tem sua força e o poder no silêncio. Por que afinal em nosso país não encontramos racistas, não é mesmo?
É um tipo assim: - participem e vivam na fazenda, mas na casa grande (os parlamentos e executivos do país) convenhamos é demais para vocês!
Não posso ser injusto; achei sim uma parte que trata da participação dos negros na reforma política; ela diz mais ou menos assim: "o fundo partidário será usado prioritariamente para estimular a participação dos negros na política."
Ora, mas quem disse que os negros e negras não participam da politica? Categoricamente participam; tanto na politica geral, como na partidária. Aliás são eles que ajudam com seus votos na eleição dos candidatos não negros, sempre prioritários dos partidos tradicionais, ou não é "casualmente" assim?
O que se diz, nesse sentido, que a reforma política que tramita no "Congresso Nacional de alguns brasileiros" é uma reforma dos não negros, para eles mesmos; afinal os negros continuarão nessa relação subalterna e aleijados da disputa dos rumos no país; tem sido assim no debate da titulação de terras de quilombolas, entre outros pontos; a tônica que "devemos reivindicar nossos direitos" está superada; esse debate é anacrônico, atrasado, conservador; os negros devem ter seus próprios representantes; com seu acúmulo e cultura política, que consigam materializar suas pautas em políticas publicas de inclusão (e não serão surfistas políticos, ou de ocasião que as farão); o debate que se apresenta, as fórmulas eurocentricas de disputa de poder, não dão conta do empoderamento de negras e negros no Brasil. Ou não é verdade? A reforma política dos não negros para os não negros não é prova cabal disso?
Aos que titubeiam, ainda; resta a afirmação categórica que a disputa de classe não encerra o debate de uma sociedade racista, machista e homofóbica; aos que margeiam e instrumentalizam essa discussão outra afirmação, que no Brasil não haverá transformação social (na concepção mais radical) sem os negros e negras.
Enfim esse debate não se encerra na reforma politica (tem mais), que os defensores de cotas étnicas em universidades e concursos públicos façam sua lição de casa e autocrítica; defendam cotas em suas direções partidárias e nominatas partidárias (proporcionais e majoritárias). Afinal, Por que o quintal do vizinho é melhor que o meu?
(**) revisado
Jeferson Henrique
ademocraciaemdebate.blogspot.com